CD CURUPIRA

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Saturday 22nd of July 2017
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Gravado em 2003 e lançado pela JAM Music.
Participação especial de Jane Duboc.

  1. Cataia
  2. Congada de Agradecimento
  3. Que Farra!
  4. Família Nova
  5. Suitão
  6. João Ferreira dos Santos
  7. Ferrolho
  8. Vinhetinha
  9. Tristezas do Jeca
  10.  Serenata nº4
  11.  Siri na Lata
  12.  Gauchada em Belô


DESINVENTADO: a afirmação de maturidade do Curupira

Quem acompanha a onda de renovação que tomou conta da música instrumental brasileira, nos últimos anos, certamente já conhece ou ao menos ouviu falar do Curupira. Esse talentoso trio, formado por jovens músicos e compositores de São Paulo, tem exibido para platéias entusiasmadas e cada vez maiores um dos trabalhos mais criativos nesse gênero musical. Não é por outra razão que André Marques, Cleber Almeida e Fábio Gouvêa vêm colecionando elogios por suas apresentações em festivais, teatros e casas de shows em várias capitais do Brasil, ou mesmo na Argentina. 
           
Após sete anos de dedicação e muita pesquisa musical, o Curupira sentiu que estava pronto para gravar seu segundo álbum. Lançado pela Jam Music, “Desinventado” é um atestado da evolução musical do trio. Bem-humorado, o título do álbum sintetiza a consciência do Curupira frente à sua arte: o grupo sabe que não está inventando um novo gênero musical, mas é capaz de criar música nova a partir de ritmos da tradição brasileira e diversas influências. O que não é pouco.

Assinando 11 composições próprias, além de uma releitura do clássico sertanejo “Tristeza do Jeca” (de Angelino de Oliveira), André, Cleber e Fábio revelam nesse trabalho que amadureceram bastante como instrumentistas e compositores. Se, no álbum anterior, o trio já chamava atenção pela inventividade nos improvisos e pela variedade de ritmos nacionais que abordava em suas composições, agora surpreende com composições mais complexas e inventivas. Os arranjos são marcados por inusitadas fusões rítmicas, além de contarem com um arsenal de timbres bem mais amplo.

“No início, quando pensávamos em fazer um frevo ou uma catira, ficávamos pesquisando esses ritmos. Hoje deixamos a música fluir mais. Podemos compor um samba e no meio dele colocar um maracatu ou um frevo, que depois vira jazz. Mas fazemos isso sem forçar nada. Tem que ser de forma natural, sem estipular regras”, explica o pianista André Marques, de 28 anos, que assina seis composições no disco. Também integrante do grupo de Hermeto Pascoal há quase uma década, André reconhece que deve muito do que sabe hoje ao mestre alagoano, não só em termos de ritmos e harmonias. “Também aprendi com ele o conceito da música livre, da música universal. Eu já tinha estudado em conservatório, mas lá só ensinam fórmulas. Com o Hermeto você aprende muito mais, porque o vê compondo na hora”, observa o pianista.

 

            Evolução musical

O novo álbum do Curupira também marca a evolução de seus integrantes no modo de encarar a música. Vale lembrar que o nome do grupo foi escolhido, originalmente, por se referir ao personagem mítico do folclore brasileiro encarregado de proteger as florestas e os animais. Ao ser fundado, em 1996, o trio assumiu uma missão semelhante: a defesa da música e da cultura brasileira. “Começamos com uma concepção totalmente centrada na música brasileira, mas com o tempo percebemos que somos contra os preconceitos musicais. Tocamos ritmos do Brasil inteiro, mas também estamos abertos a diversas influências, seja da música erudita, do jazz, da música árabe, do flamenco. Música é música”, afirma André Marques.

Embora tenha contribuído para atrasar as gravações do novo álbum, a substituição do baixista Ricardo Zohyo pelo guitarrista e baixista Fábio Gouvêa, no final de 2002, não modificou a essência do grupo. “O Zohyo é um cara querido, nosso irmãozão de som, mas ele precisou sair do trio e deixou um buraco. Graças a Deus surgiu o Fábio, um cara novo que tem a mesma concepção musical da gente e contribuiu muito para esse disco”, comenta o baterista e percussionista Cleber Almeida, de 26 anos, que também compôs quatro faixas para o álbum. “Entrar no trio foi uma honra. O Curupira já era uma referência para mim”, afirma Fábio, de 23 anos, que surpreendeu os novos parceiros por ter aprendido a tocar baixo muito rapidamente.             
           
“O nosso som mudou bastante. Quando se troca algum músico em uma big band ou num ‘combo’, a sonoridade continua praticamente a mesma, mas num trio já vira outro planeta”, compara Cleber, referindo-se ao fato de o Curupira ter passado a contar com novos timbres nesse disco, como sua viola caipira, seu cavaquinho e seu violão, como a guitarra, o cavaquinho e as flautas de Fábio ou a sanfona, a escaleta e a flauta de André. “É muito difícil encontrar um arranjo interessante, diferente daquele modo como os trios costumam tocar, mas já estamos começando a achar um caminho próprio”, avalia o baterista.

 

            Um caminho original

“Desinventado” comprova que o Curupira encontrou seu caminho original como trio, não só em termos de arranjos, mas também como concepção musical. Basta ouvir “Cataia”, a faixa de abertura, composta por Cleber. Trata-se de um samba, que ganhou polirritmias ao longo do arranjo, incluindo até ritmo de maracatu. Sem falar nos improvisos da guitarra de Fábio e dos teclados de André, bem jazzísticos. A mesma concepção estética norteia “Que Farra!”, composição de André. Originalmente um maxixe, ela recebeu uma introdução em compasso composto de 7/4 e improviso com melodias inspiradas nos cantadores do Nordeste. “Resolvemos fazer uma bagunça no meio para justificar esse título”, diverte-se o compositor, referindo-se aos berros e risadas que ele e os parceiros inseriram na gravação.

Outra faixa que ilustra bem a criativa concepção musical do Curupira é a versão da clássica “Tristeza do Jeca”. Cleber abre o arranjo tocando sua viola caipira, incluindo vocais tipicamente sertanejos. Na primeira volta ao tema, o ritmo já é de ciranda nordestina. Finalmente, na segunda volta à melodia, o ritmo se transforma em um baião bem livre. “Tenho um grande xodó por essa música, até por eu ser do interior. A pessoa que não está acostumada a ouvir música instrumental vai poder associar a música à viola e viajar junto com o arranjo, mesmo que a harmonia vá entortando”, comenta Cleber, revelando que arranjos de outras músicas conhecidas também farão parte do repertório do trio em seus próximos shows. “Também podemos tocar música de outros autores e ela continuar parecendo nossa”, apóia André.
           
As misturas rítmicas e ecléticas influências do trio se espalham por outras faixas. “Siri na Lata” – a mais antiga do disco, composta em 1997 por André – é um xote com levadas de frevo. “Gauchada em Belô”, outra do pianista, funde ritmos do sul do país, como a chula, com a chacarera uruguaia. Já a influência da música erudita contemporânea está evidente em “Suitão”, a composição mais extensa do álbum. “Ela é bem complicada e não tem muito repouso”, explica André, que decidiu compor uma longa suíte. “Deixei que as idéias viessem até acabar. Quis fazer vários trechos curtos, que se encaminham naturalmente de um para o outro, mas sem terem a ver com os anteriores”, diz o pianista. Já para o frevo “Ferrolho”, que aparece numa versão bem diferente da que o trio vinha exibindo em shows, André decidiu explorar novos timbres de teclado.

Também não faltam homenagens carinhosas no disco. “João Ferreira dos Santos” é uma balada que Cleber dedicou a seu avô, já falecido. “Serenata nº 4”, uma das oito serenatas que André já compôs para sua esposa, é uma valsa. O baião “Família Nova” foi composto por Fábio em homenagem a seus novos parceiros. Assim como acontece na citada “Gauchada em Belô”, de André, a jazzística “Vinhetinha” e “Congada de Agradecimento”, ambas de Cleber, destacam nos vocais a participação especial da cantora Jane Duboc. Com sua voz privilegiada, ela mostra com muita sensibilidade porque é uma das cantoras favoritas de grande parte dos instrumentistas brasileiros, ou mesmo de jazzistas estrangeiros, como o saudoso saxofonista Gerry Mulligan.

Sem se propor a inventar nada, mas empenhado em criar música de raízes brasileiras com requinte harmônico e linguagem universal, o Curupira resgata em “Desinventado” a melhor música instrumental brasileira. Com humildade, esmero técnico, criatividade e personalidade musical, o jovem trio paulista mostra que veio para ficar.

                                                                      
                                                                                              Carlos Calado*
                                                                                              Outubro de 2003

 

(*) Carlos Calado é jornalista, crítico musical e autor de “O Jazz Como Espetáculo” e “Tropicália: a História de Uma Revolução Musical”, entre outros livros sobre música brasileira e jazz.